Antes do rompimento – carta aberta de uma cidadã cocaiense à Vale

Conversas hídricas

Antes do rompimento – carta aberta de uma cidadã cocaiense à Vale

maio 22, 2019 Gotas 0

Desde o dia 08 de maio de 2019 os moradores de Barão de Cocais, na região central de Minas Gerais, tem sido afastados de seus lares dado às movimentação em um talude da cava da mina de Gongo Soco, operada pela empresa Vale.

A mina de Gongo Soco é explotada desde 1745 e acompanha os ciclos da mineração exploratória no estado de Minas Gerais. A tensão entre a sociedade tende a crescer após os crimes de Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019. Em Brumadinho ainda são encontrados corpos dentre os 241 mortos oficialmente identificados. São 29 as pessoas consideradas desaparecidas.

Há a esperança de que o talude possa cair na vala, sem chegar à barragem e minimizando a possibilidade de uma tragédia envolvendo a vida de seres humanos ou impactando ainda mais na poluição das águas do Rio São João e Rio Doce, além de seus caminhos até a foz oceânica.

A empresa mantém uma agenda pública desatualizada sobre o trabalho realizado com os moradores de Cocais, como podemos observar no site da Vale específico sobre o crime em andamento. As notícias na imprensa são desesperadoras.

Já o Ministério Público mineiro exige relatórios da situação e a tomada de providências, como podemos ver em documento disponibilizado online e que explica a situação oficialmente.

Sobre a ignorância de mantermos atividades produtivas com este nível de destruição ambiental motivada por dinheiro, não comentaremos.

Publicamos aqui uma carta aberta, assinada por uma cidadã cocaiense, muito sincera e expressiva. Há caminhos para uma sociedade em harmonia com a natureza e entre as pessoas.

 

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Carta aberta à Vale,

Sou Pé de Pomba, com muito orgulho. Nasci e vivi toda minha infância e adolescência em Barão de Cocais, na Rua Moura Monteiro, coração da Vila Operária, onde ficava o Grupo Escolar e o Hospital. Brincava descalço pisando a terra pedregosa e escura que me encardia os pés. Junto com a meninada, corria atrás de bolas de meia, jogava queimada, pulava corda e brincava de roda. Nas tardes mais quentes de primavera e verão, a brincadeira era na beira do Rio São João, onde ele se encontra com seu afluente, o Córrego de São Miguel. As mães das crianças da nossa rua, eram mães de todos nós. Eram respeitadas quando nos chamavam a atenção por brincadeiras perigosas ou quando tínhamos alguma desavença, evitando que ficássemos ‘de mal’. O rio São João corria no fundo dos quintais e, em alguns locais, era possível brincar dentro d’água, enquanto capturávamos ‘marias-sapudas’.

Naquele tempo era comum que nossos pais sonhassem em nos ver um dia, empregados na Vale do Rio Doce, em Itabira. Muitos deles, não estão mais vivos, e, portanto, não vivem hoje o pesadelo que sobreveio à vinda da Vale para nossa cidade. Enquanto seus filhos, aqueles que também sonharam um dia trabalhar nesta empresa, assistem hoje ao espetáculo da morte anunciada da nossa Barão de Cocais! É assustador para todo pé-de-pomba, testemunhar os efeitos da ganância desta empresa que explora à exaustão o solo das cidades mineiras, o canibalismo com que vai consumindo incontáveis vidas dos seus moradores.

Que benefícios a Vale trouxe e promoveu para o progresso da cidade desde que aqui se instalou? Quanto efetivamente cresceu a oferta de empregos para a população cocaiense? Quais investimentos sociais e culturais feitos pela Vale representaram mudança na qualidade de vida para nossa cidade? Que projetos de preservação da natureza, promoção de saúde, educação ou de qualquer outra natureza a Vale implantou efetivamente em Barão desde que aqui chegou? Qual tem sido o empenho da Vale, desde que aqui se instalou, em obter melhorias significativas para a cidade, emprestando seu poder e influência para pleitear obras importantes para nossa cidade, como, por exemplo, a duplicação da BR-381?

Diante da situação em que se encontra Barão de Cocais neste momento, é espantoso e desesperador constatar que nem os crimes de Mariana e Brumadinho foram suficientes para abalar a arrogância desta empresa e mobilizar em seus mandatários alguma atitude minimamente responsável e humanitária. As únicas lições que a Vale demonstra ter aprendido com estas duas calamidades resultantes de sua negligência, inépcia e incompetência, se referem a como ludibriar e conchavar política e juridicamente para não pagar multas e muito menos indenizar suas vítimas. Nestas duas situações a Vale arquitetou sua defesa em ‘desconhecimento dos fatos’, em ‘falha nos relatórios’ etc.

Pois, em Barão de Cocais, a empresa não tem como se eximir desta responsabilidade, já que os sinais da tragédia iminente vieram a público com alguma antecedência. Não havendo, pois, o elemento surpresa sobre o iminente desabamento de mais uma de suas barragens construídas imprópria, negligente e inadequadamente, a empresa se viu obrigada a ‘tomar todas as providências cabíveis” para minimizar a desgraça de mais uma cidade.

Na realidade, o que é mesmo que efetivamente a Vale tem feito? Nada.

Se quisesse mesmo respeitar e preservar pelo menos a vida emocional das pessoas que estão à sua mercê, a Vale deveria ter providenciado, desde o primeiro momento, não apenas a retirada inadvertida e espetaculosa dos moradores do entorno da mina e da barragem.

Deveria, além de retirá-los, providenciar imediata relocação deles, com todos os seus bens, pertences, animais e tudo que fosse de importante para eles, em novas moradias, similares às que lhes foram subtraídas por sua irresponsabilidade. Eles deveriam receber indenizações previamente à queda da barragem, pois, sendo esta inevitável, jamais poderão retornar ao seu lugar originário.

Reitero, a Vale sabia previamente o que estava por vir, sabia também dos riscos assumidos quando desenhou o talude da cava da mina de Gongo Soco da forma que o construiu e quando utilizou o método obsoleto e perigoso de construção da barragem de rejeitos do minério, bem acima dos povoados do Tabuleiro, Socorro e outros. Sabia que estava desde então, condenando à morte o Rio São João e as cidades em seu entorno e, mais uma vez o Rio Doce que foi o primeiro nome dessa empresa: “Vale do Rio Doce”. Ela não só retirou o Rio Doce do nome como o assassinou de fato.

Estamos assistindo a morte anunciada de mais uma cidade mineira… São aterradores os vídeos sobre as simulações que têm sido organizadas pela defesa civil e Vale em Barão de Cocais! A população desinformada parece não se dar conta da gravidade da situação. As pessoas perambulam pelas ruas e pontos de acolhimento, participam de protestos acanhados que não retratam a real situação de desamparo e fragilidade a que estão expostas. Muitas não conseguem responder de forma inteligível as perguntas de entrevistadores despreparados, que se limitam a descrever as cenas e repetir frases sem nenhuma objetividade.

De que adiantam as orientações para que as pessoas se retirem de suas casas, deixando tudo para trás ao ouvirem a sirene de alerta de rompimento da barragem e se dirigirem para as áreas de acolhimento? O que será oferecido a elas a partir daí? Com o que deverão contar depois da ocorrência fatal? Elas estão sendo conscientizadas de que a cidade será parcialmente destruída, definitivamente, e que com isto elas perderão sua história, sua memória e sua identidade? Elas sabem quão irremediável é a situação?

Os moradores da área da mancha deveriam estar recebendo novas moradias como indenização prévia já que nunca poderão retornar às suas casas ou recuperar seus bens e pertences depois da desgraça acontecer. É mais do que desumano e perverso mantê-las de sobreaviso por tempo indeterminado, provocando-lhes grave abalo emocional que em muitos casos, serão irreversíveis, e não lhes oferecer nenhuma solução objetiva para o transtorno que está lhes causando.

Pelo lado material, é óbvio que a Vale pretende agir como tem agido até então (vide Mariana e Brumadinho), de modo a protelar acordos e mesmo depois de firmá-los protelar seu cumprimento. Seu descaso com a vida de pessoas e cidades é notório.

Torna-se urgente que as autoridades cocaienses, o Prefeito, o Vice, os vereadores, as demais lideranças políticas e da sociedade, os padres, líderes religiosos, advogados, polícia, comerciantes, professores e diretores das Escolas, funcionários públicos, toda a população que está fora da “área da mancha”, bem como a Gerdau, outras mineradoras e empresas aí instaladas, assumam uma postura solidária e responsável de pressão e cobrança de providências efetivas e imediatas, junto ao Ministério Público, à Arquidiocese, o Governador do Estado, Deputados estaduais, e federais etc. para salvar nossa cidade!

As autoridades e lideranças da cidade precisam exigir ações preventivas urgentes por parte da Vale no sentido de, além de preservar as vidas dos habitantes de Barão de Cocais, poupar-lhes a saúde emocional e psicológica, legitimando sua dignidade como seres humanos e poupando-os de mais prejuízos do que já tiveram até então. Será possível que vão se limitar a assistir este teatro de horrores enquanto invocam a Misericórdia Divina, para posteriormente “tomar as devidas providências” em busca de justiça?

Como cidadã Cocaiense exijo da Vale uma postura responsável e ética e que ela pare de promover catástrofes criminosas por onde passa. É um custo alto demais para os empregos que gera, pelos impostos (poucos) que deixa nos municípios e pelo rastro de sangue e de destruição que espalha.

Finalmente pergunto à Vale: Quantas mortes mais serão necessárias? Quantas cidades precisarão ser destruídas? Quantas histórias mais serão soterradas? Quantos rios precisarão ser mortos? Quanto da natureza ainda precisará desaparecer para saciá-la em sua sanha por dinheiro?

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